quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Cena 15 - Ausência de mim; Presença de vocês.

Acabei de dar uma volta por este estranho bairro de castelos, fortes, borboletas e poços de despejo que nós criamos. Senti saudades, a vida é mais doce quando temos a quem pedir um punhado de açúcar. Saudades e um pouco de inveja. Vocês continuam derramando em palavras seus medos, conquistas e pensamentos, e agora sabendo que são lidos e acompanhados. Ainda têm a sobriedade para perceber que expor medos faz dos seus amigos cúmplices voluntários que vão cuidar para que eles não se concretizem, compartilhar conquistas transforma os que querem seu bem em sócios e contar decisões os torna líderes de torcida da sua vida. E isso tudo importa. Eu, por outro lado, tenho um mês inteiro no calendário que não posso explicar.

Estou ausente de mim, se é que isso é possível. As mãos que agora falam me pertencem, mas a versão que tem ocupado meus espaços é alguém cansada, irritadiça, agressiva, que não vê sentido em escrever, que não ri com facilidade, que contrai o rosto a ponto de doer ao fim de um dia, que come e gasta mais do que precisa, que esqueceu como se pede perdão e chora ao se olhar no espelho. Me perdi em meio à confusão. São situações a resolver, coisas que ficaram por fazer, carro quebrado, trabalho, saúde, conversas evitadas, orações que não foram feitas, momentos ignorados, relacionamentos que precisam ser cuidados e pessoas que merecem mais. Tudo entulhado em um compartimento fechado para evitar que incomode a rotina. É como se você deixasse toda a bagunça em seu quarto acumular e fosse dormir na sala porque não consegue encontrar a cama. E está cansado demais para tentar organizar. Quem sabe amanhã, quando chegar do trabalho. Mas a bagunça aumenta, e com o passar do tempo você mal se lembra de como o seu quarto era e onde ficava cada coisa.

Passei o feriado tentando reunir coragem para desbravar o meu próprio caos interno e encontrar o Ponto de Descanso em torno do qual gira qualquer quarto ou vida. Geralmente as mudanças começam por lá. Mas onde foi que se enfiou a porta?

Não há problemas. Não estou triste. Não estou com raiva. Ninguém me mordeu. Meu cachorro continua vivo. Até a bezerra parece ter driblado a morte. Deus continua me amando. O Brasil continua o mesmo. Os amigos continuam os mesmos. Nenhuma novela mexicana nova nem nenhum estudo revelando que chocolate dá câncer. Mesmo assim, há essa vontade de me esconder até passar. Acho que passei tanto tempo evitando abrir certas portas e derramar certas lágrimas, que agora elas são como lembranças do que não vivi. O problema é que aparentemente, no nosso passado só ficam as coisas que vivemos, o resto, o que trancamos e pensamos escapar, fica preso em uma espécie de eterno presente.

Aquilo que você sente e cala porque de alguma forma ofende o que você é – raiva infundada, mágoa injustificável, trauma, saudade do que não se deve – simplesmente irá armar acampamento no seu calcanhar. E é por aí que o caos começa a pôr em prática os planos de dominar seu mundo. Nem tudo é visto a olho nu, às vezes é preciso um estetoscópio para entender por que dói, e aceitar que mesmo que pareça ridículo, se o fato de alguém vestir verde com marrom te atingir, ignorar ou jogar o cobertor em cima não ajuda. É preciso tratar e resolver, antes que você acabe brigando com uma árvore.

E foi isso que eu fiz. Arranjei briga com uma floresta inteira e depois me escondi porque não podia me explicar. Mas eu não contava com a astúcia do cuidado de vizinhos/amigos/irmãos. Vocês me fizeram experimentar ser o sujeito atendido do pedido popular “ame-me quando eu menos merecer...”, e isso mudou tudo.

Vizinhas, a disposição de vocês para se deslocar da aula ou do fim do mundo a que a Márcia chama de residência (é longe!) para vir em meu socorro, por mais inexistente que o meu problema pudesse parecer, mudou meu dia, minha semana, meu mês. Vocês me surpreenderam, e de repente eu me vi com seis mãos para me levantar. É a parte que eu vou me lembrar.

Meninos, o cuidado eterno que vocês têm comigo, isso sim é inexplicável. O restaurante e cinema particulares que me criaram me fizeram lembrar de por que há certas amizades das quais não se pode abrir mão. Sua companhia fez o meu caos interno parecer pequeno e indefeso. Ele passa, vocês não.

E se houver pouco o que aproveitar nesta tão tardia Cena 15 (já que é um artigo da famosa Umbigolândia), espero que ao menos vocês possam perceber a medida da minha gratidão a Deus por tê-los na minha vida. Ainda não encontrei a tal porta do quarto, mas graças a vocês fui forçada a entrar pela janela. É um bom começo...

11 comentários:

*Mel* disse...

snif. Quase li novamente para comentar cada parágrafo.
agora só lembro do final...rs. Mas o sentimento do enredo pulsa forte.

Tita, as 6 mãos podem se resumir em somente duas q mesmo injustamente atravessadas, estão íntegras e cheias de poder e força para te levantar.
O restaurante e o cinema particular foram um spa preparado pelo dono do vento impetuoso e da chuva de boa medida.
O verdadeiro dono do quarto tentou te alcançar, esperou por vc naquele encontro q era diário(ou noturno?), q acontecia frequentemente. Ele se preparou, se perfumou, trouxe a palavra preciosa, mas vc ñ conseguiu encontrá-lo. Ficou em silêncio ñ para ouví-lo, mas para omitir-se e descansar ausentando sua existência. Ele é insitente,romãntico e carente d vc.
Usou os q, talvez, por hora, foram parte dessa exaustão. Se vc não foi ao jardim secreto, Ele o contruiu ao redor d vc, e pela graça foi possível contemplar esta manifestação.

A janela q vc acha q entrou,na verdade,é o portão principal ornamentado com flores q o Jardineiro fiel cultivou especialmente p/vc...
Entre sob lágrimas de redenção e aceite a paisagem criada p/vc!Contemple o horizonte e o fruto será seu resultado + precioso.

Sua fã#1.

ricardo disse...


Esse negócio de quarto bagunçado é um problema. Eu "perdi" meu cartão de vacina no meu quarto. Descobri que tenho tudo o que preciso espalhado pelo chão do meu quarto, de modo que não consigo alcançar a janela. Todo dia é uma torcida pra não chover... rsrs

Obrigado por fazer parte da sua vida e tentar ajudá-la na sua arrumação interior. Já te disse, e repito, te amo muito mesmo.

Temos visto a boa e doce e velha parte da Tita emergindo desse "caos" interior... Estamos puxando-a pela mão e, enquanto estiver a parte irritadiça e agressiva, atochamos açúcar nela! rs

beijos, ricardo

Anônimo disse...

Putz! Eu fico fora 15 dias e vc fica assim!!! Não se desespere, amanhã eu volto para o seu lado e poderemos conversar viu?! E o Marcelo fica te chutando para te fazer feliz!

Bjos

A Anônima de sempre....

Rafa disse...

Rs, cozinhar é sempre um prazer, afinal, que dono não gosta e cuida do seu jardim?

Meus amigos são peças fundamentais na minha vida, e você é uma dessas peças do meu quebra-cabeças.

PS: Rs, se tiver arrombado a janela, me chama que conserto janelas a preço de banana rs.. é que to juntando grana pra uma viagem e blá blá.. heheheheh

Bjos Rainha Tradutita...
We Love U

ricardo disse...


Blah, quanta besteira escrevi... Melhor desconsiderar! rs

beijos, ricardo

Claudia Lins disse...

Eu me chamo Claudia, passei por aqui e adorei o que li! Espero que este conto nunca termine! rsrsrs
Vou visitar diáriamente este blog...
Com muito carinho, desejo que você tenha um dia feliz!
Bjs

Lê Cami disse...

Ombros e lenços ao seu dispor, querida! Ou se preferir, "salvação" em momentos de saia-justa, troca do almoço por cinema, passeio no parque ou qq coisa que ajude a desestressar.

Um bom tanto de brigadeiro e um dia de seriados. Isto ainda está pendente, né?

Beijos.

Marcia disse...

Vizinha,
Ultimamente ando sem inspiração até para comentar...
Mas espero sinceramente que você já tenha se encontrado e que os dias de descanso tenham valido alguma coisa.
bjs!

Marcia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafa disse...

Não devo cobrar atualizações, afinal, nunca atualizo meu próprio blog. Mas gosto de ler o seu, então... espero o próximo post.

Bjos

Mel disse...

Xita, vc é leitora-convidada.
Visite, rapidamente, meu blog.
bjo